Confiabilidade das escalas marítimas cai para níveis críticos

Menos de 30% dos navios estão partindo dentro do cronograma. Dados da Xeneta mostram deterioração da performance operacional global. Fenômenos climáticos na Ásia e rearranjos de rotas seguem afetando a previsibilidade logística.

Em agosto, a confiabilidade das escalas caiu para 29,4%, marcando o terceiro mês consecutivo de piora e recuando frente ao pico de 39% registrado em maio.

Fenômenos climáticos na Ásia, especialmente durante a temporada de tufões, combinados com os rearranjos de rotas provocados pelos conflitos no Oriente Médio, continuam afetando a previsibilidade logística global. O impacto é sentido tanto nos embarques quanto nas programações de atracação, gerando atrasos em cascata ao longo das principais cadeias marítimas internacionais.

Os dados mostram que as rotas mais afetadas são as que ligam o Extremo Oriente à Europa e o Extremo Oriente à América do Norte. Nos serviços Ásia-Europa, a pontualidade despencou de cerca de 47% em meados de junho para apenas 3% no final de julho, enquanto nos corredores Ásia-América do Norte a confiabilidade caiu de 38% para 19% no mesmo período.

Os maiores gargalos estão concentrados em grandes hubs asiáticos, especialmente nos portos de Shanghai, Ningbo, Qingdao e outros terminais da costa chinesa, onde congestionamentos provocados por eventos climáticos e omissões de escalas vêm reduzindo a fluidez operacional. Relatórios de mercado também apontam aumento de atrasos e dificuldades de disponibilidade de equipamentos nesses complexos portuários, ampliando os reflexos para rotas transpacíficas, Europa e Oceania.

Impactos Esperados

Embora o relatório da Xeneta destaque principalmente os corredores Ásia-Europa e Ásia-América do Norte, os reflexos chegam diretamente ao Brasil porque boa parte dos serviços que atendem a costa brasileira compartilha navios, equipamentos e escalas com essas rotas globais. Quando há congestionamentos e atrasos nos hubs asiáticos, o efeito cascata acaba atingindo as linhas destinadas à América do Sul

Rotas Brasileiras mais impactadas

1. Ásia → Costa Leste da América do Sul (Brasil, Argentina e Uruguai)

  • É a rota mais vulnerável neste momento.
  • Muitos serviços partem de portos chineses afetados por tufões e congestionamentos.
  • Atrasos em Shanghai, Ningbo e Qingdao acabam chegando aos portos brasileiros semanas depois.
  • Há maior risco de “blank sailings” (cancelamento de escalas) e rolagem de cargas.

2. Brasil → Ásia

  • Exportadores brasileiros enfrentam menor previsibilidade para embarques de proteína animal, celulose, algodão, café e commodities agrícolas.
  • Os atrasos nos ciclos dos navios reduzem a disponibilidade de contêineres vazios para exportação.

3. Brasil → Europa

  • Menos impactada que a rota asiática, mas ainda sujeita a atrasos devido ao reposicionamento global de embarcações.
  • Armadores seguem priorizando mercados mais rentáveis, especialmente os fluxos para os Estados Unidos, o que pode reduzir a oferta em algumas linhas sul-americanas.

Portos brasileiros com maior risco de atrasos

Os efeitos tendem a ser mais perceptíveis nos principais gateways de contêineres do país:

  • Porto de Santos (SP): principal concentração de importações e exportações conteinerizadas do Brasil.
  • Porto de Paranaguá (PR): fortemente conectado às rotas Ásia-Brasil.
  • Porto de Itapoá (SC) e Porto de Navegantes (SC): importantes hubs de cargas de importação e reefer.
  • Porto de Rio Grande (RS): relevante para exportações agroindustriais e operações de longo curso.
  • Porto de Suape (PE): importante ponto de conexão para serviços internacionais e transbordos.

O problema não é necessariamente congestionamento local nesses portos, mas sim a chegada tardia das embarcações, alteração de janelas de atracação e necessidade de reprogramação das operações terrestres.

Com a confiabilidade global em apenas 29,4%, significa que aproximadamente 7 em cada 10 navios estão operando fora da programação prevista, cenário que exige planejamento de compras com maior antecedência, especialmente para operações Ásia-Brasil.

Leitura de Mercado

Em um ambiente onde apenas 3 de cada 10 navios cumprem os cronogramas previstos, empresas com capacidade de previsão de demanda, diversificação de fornecedores e planejamento logístico antecipado, com aumento de estoque em trânsito e fracionamento dos embarques em cargas semanais, tendem a obter vantagens competitivas e menor exposição aos impactos dos atrasos marítimos globais.

Fonte: Xeneta / AJOT (American Journal of Transportation)