Escassez de profissionais ameaça setor de comércio exterior

79% das empresas de comércio exterior e logística têm dificuldade para contratar

Pesquisa do ManpowerGroup revela que quase oito em cada dez empresas brasileiras do setor enfrentam dificuldades para encontrar profissionais qualificados.

A complexidade crescente das cadeias internacionais está aumentando a demanda por profissionais capazes de lidar com tecnologia, comércio exterior, compliance, legislação aduaneira e gestão logística.

Empresas passaram a utilizar modelos híbridos, participação nos resultados, programas de desenvolvimento e maior flexibilidade para reter talentos.

E o desafio não termina na contratação. Levantamento da Robert Half com profissionais qualificados mostra que, entre os fatores que mais influenciam a permanência em uma empresa, 46% citam modelos de trabalho flexíveis, 33% apontam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, 31% mencionam ambiente e cultura organizacional e 25% destacam oportunidades de desenvolvimento. Os dados indicam que a remuneração segue relevante, mas divide espaço com aspectos relacionados à forma como o profissional trabalha, se desenvolve e se relaciona com a organização.

O problema é maior do que o setor de Comércio Exterior

O cenário brasileiro de mão de obra especializada é estrutural. Na edição 2026 da Pesquisa de Escassez de Talentos do ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros declararam dificuldade para encontrar profissionais com as competências necessárias, contra 72% na média mundial.

No recorte setorial, Comércio & Logística registra 79%, empatado com Hospitalidade, Manufatura, Serviços Públicos & Recursos Naturais e Setor Público, Saúde & Serviços Sociais. O setor de Serviços Profissionais, Científicos & Técnicos aparece ainda acima, com 85%, enquanto Informação chega a 83%.

A leitura é particularmente relevante para o comércio exterior porque a atividade combina conhecimento técnico, legislação, tecnologia, idiomas, gestão documental, negociação internacional e capacidade de resposta a mudanças regulatórias.

São Paulo concentra a maior pressão por talentos

A dificuldade de contratação também apresenta forte componente geográfico.

Segundo o ManpowerGroup, São Paulo lidera o ranking nacional de escassez, com 88% dos empregadores relatando dificuldades para contratar. Minas Gerais aparece com 85% e Rio de Janeiro com 80%. A cidade de São Paulo registra 79%, enquanto o Paraná aparece com 74%.

Mais de 5 mil vagas aparecem apenas em uma plataforma

Um retrato do mercado de contratação ajuda a dimensionar o fenômeno.

Uma busca realizada no LinkedIn em setembro de 2026 identificava mais de 5.000 vagas relacionadas a Comércio Exterior no Brasil. Em uma busca mais restrita, com filtros de candidatura simplificada, apareciam 827 oportunidades. Já pesquisas específicas para funções de Analista de Comércio Exterior retornavam mais de 3.000 resultados.

A demanda não está apenas em vagas para Analistas De Comércio Exterior

A busca atual mostra, por exemplo, posições de Customs Specialist, Brazil Customs Affairs Manager, especialistas em importação/exportação, profissionais de OEA e analistas de comércio exterior em diferentes níveis de senioridade.

Isso indica uma mudança importante: o mercado não busca somente operadores de processos de importação e exportação, mas profissionais capazes de interpretar riscos, dados, legislação e estratégia.

Capital humano passa a ser infraestrutura crítica do comércio exterior, especialmente em funções de compliance, classificação fiscal, desembaraço e gestão de supply chain.

Salários começam a refletir a disputa

Os dados salariais também mostram que determinadas funções de comércio exterior estão se tornando mais valorizadas.

Levantamento do Portal Salário, baseado em dados do CAGED, aponta que o Analista de Exportação e Importação recebe atualmente salário médio de R$ 5.129 por mês, com mediana de R$ 4.607, piso médio de R$ 3.743 e teto de R$ 8.544.

A amostra considera 13.625 profissionais e o período de agosto de 2025 a julho de 2026. O salário médio apresentou crescimento de 4,6% em relação a 2025.

Outro indicador chama atenção: o Portal Salário registra 1.827 admissões para a ocupação no período mais recente, contra 1.641 anteriormente, crescimento de 11,3% no volume de contratações.

Ao mesmo tempo, o saldo específico da ocupação aparece negativo em 677 vagas no indicador do portal, sinalizando uma combinação de movimentação elevada e substituição de profissionais.

Já o mercado de Supply Chain apresenta valores ainda mais elevados.

O Guia Salarial 2026 da Robert Half aponta, nacionalmente, remuneração inicial de R$ 5.850 a R$ 8.900 para Analista de Supply Chain/Suprimentos de pequenas e médias empresas, enquanto profissionais de empresas maiores aparecem na faixa de R$ 7.600 a R$ 11.900.

Para Coordenadores de Comércio Exterior, as faixas nacionais chegam a aproximadamente R$ 10.800–R$ 15.950, dependendo do porte da empresa e do nível da posição.

No nível gerencial, um Gerente de Supply Chain/Suprimentos pode alcançar faixa de R$ 23.150 a R$ 37.300 em empresas de grande porte.

O novo perfil do profissional de Comércio Exterior

A tendência é que o profissional mais disputado seja aquele que combine quatro dimensões:

1. Conhecimento técnico

Classificação fiscal, regimes aduaneiros, documentação, drawback, OEA, DUIMP, NCM, regras de origem, Incoterms, valuation e legislação tributária.

2. Tecnologia e dados

ERP, sistemas de comércio exterior, automação, análise de dados, inteligência artificial e integração de informações.

3. Idiomas e negociação

Inglês deixa de ser diferencial para determinadas posições e passa a funcionar como requisito básico, especialmente em empresas multinacionais e operadores logísticos globais.

4. Gestão de risco e compliance

A crescente complexidade regulatória exige profissionais capazes de identificar inconsistências antes que elas se transformem em multas, atrasos, custos adicionais ou interrupções da cadeia.

Leitura de mercado

O talento especializado está se tornando um ativo estratégico do comércio exterior.

Empresas que continuarem tratando profissionais de comércio exterior, compliance aduaneiro, classificação fiscal, logística internacional e supply chain apenas como centros de custo poderão enfrentar maior rotatividade, perda de conhecimento e aumento do risco operacional.

Por outro lado, organizações que estruturarem planos de carreira, remuneração competitiva, capacitação contínua, automação e retenção terão maior capacidade de proteger suas operações internacionais.

O próximo gargalo do comércio exterior pode não estar no porto, no navio ou na alfândega. Pode estar na falta de quem saiba operar tudo isso.

Fontes: Manpower Group / Ministerio do Trabalho – CAGED / Portal Salário / Robert Half / Linkedin Jobs